No terceiro número dedicado a esta série, apresentamos Paul Mattick (1904-1981). Se em termos etários, Mattick pode ser considerado o último dos integrantes da primeira geração dos teóricos militantes da chamada Esquerda Comunista Germano-Holandesa (ECGH), em termos militantes foi o mais precoce, e um dos que mais manteve a importância do fator organizativo, além de ter agregado novos aportes com suas contribuições econômicas.
Biografia: De operário de chão de fábrica a historiador do movimento proletário
Filho de imigrantes pobres da Pomerânia (região que hoje pertence à Polônia), trabalhou inicialmente na Siemens em Berlim, e depois como eletricista e mecânico em várias cidades alemãs. Aderiu à Liga Espartaquista de Rosa Luxemburg em 1918, aos 14 anos, participou ativamente na revolução alemã. Sempre na linha de frente das greves, combates insurrecionais de rua e levantes, em 1920, aos 16 anos, liga-se ao KAPD (sigla em alemão do Partido Comunista Operário da Alemanha, organização de caráter antiparlamentar e crítica do sindicalismo integrador). O refluxo da revolução, aliado ao crescimento do nacional-socialismo e da repressão às tendências mais radicalizadas, tornam muito difíceis as condições de militância, sobrevivência material e integridade física de Mattick. Em 1926, aos 22 anos, ele decide emigrar para os Estados Unidos.
Nos EUA, Mattick combinou o trabalho como operário metalúrgico, o estudo aprofundado, principalmente de Marx, a produção teórica e a militância junto ao IWW – sigla em inglês de Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo, sindicato internacionalista de orientação revolucionária fundado nos EUA em 1905 e existente até os dias de hoje com seções em alguns países. Seus militantes são denominados wobblies). Estabeleceu-se em Chicago até 1941 e logo se conectou com outros imigrantes alemães, esforçando-se para revitalizar o Chikagoer Arbeiterzeitung, periódico em língua alemã editado desde 1876. Desse período se dá seu vínculo com os IWW, porém mantendo-se articulado com os grupos holandeses e alemães que defendiam que o Sistema de Conselhos Proletários é a base da sociedade comunista, assim integrou também um grupo de conselhistas estadunidenses. A crise de 1929 atingiu em cheio sua materialidade, transformando-o em um desempregado. Mattick então militou no movimento reivindicativo de desempregados, organizando entre eles grupos de discussão de “O Capital” por seus conhecimentos profundos dessa obra de Marx. Naquele momento, enquanto bolcheviques e sociais democratas enviavam petições ao governo, o grupo de Mattick partiu para a ação direta, desviando tubulações de gás para que todos pudessem tê-lo e iluminando moradias por meio da ligação direta da energia elétrica das casas aos postes de iluminação pública.
“Chegado ao apogeu do seu poder, o capitalismo chegou também ao mais alto ponto de vulnerabilidade, não tem saída senão para a morte. Por mais fracas que se apresentem as possibilidades de revolta, menos que nunca é altura de renunciar ao combate!” — Paul Mattick
A partir de 1934, seu trabalho de escritor coloca-o na condição de diretor de revistas teóricas das correntes comunistas antibolcheviques nos EUA até 1943 – sucessivamente: Internacional Council Correspondence (Correspondência Conselhista Internacional) de 1934 a 1937, Living Marxism (Marxismo Vivo) de 1938 a 1941, e New Essays (Novos Ensaios) de 1942 a 1943. No início da Segunda Guerra Mundial Mattick adquire a cidadania estadunidense, pois sem ela o único direito de um estangeiro nos EUA era se alistar no exército. Durante a guerra fria, Mattick se vê obrigado a sair do meio industrial, retirando-se com sua mulher e filho para uma propriedade rural no extremo nordeste dos EUA (Vermont) e vivendo de “bicos” e seguro desemprego. Na década de 1960 em diante, pode se dedicar aos estudos e a escrever devido a sua segunda mulher ter conseguido um trabalho de professora em Boston, Massachusetts. Foi quando Mattick teve seu único trabalho acadêmico: um emprego temporário de um ano como professor visitante na Universidade de Roskilde, na Dinamarca. Apenas em fins dos anos 1960 Mattick seria retirado de seu isolamento forçado em função do renovado interesse pelas concepções do comunismo antiautoritário. A partir de então, e até a sua morte em 1981, aos 77 anos, realizou palestras pela Europa e América.
Singularidades de uma trajetória e de um pensamento
Diferente de todo o chamado “marxismo ocidental”, Mattick se manteve profissionalmente no proletariado industrial, e não se interessou pelos aspectos filosóficos do marxismo em prejuízo dos aspectos políticos e, principalmente, econômicos.
Entre artigos e livros, os escritos de Mattick somam mais de 500 textos. Seus principais temas foram: a) a dinâmica de ciclos de expansão e recessão do capitalismo; b) a posição da teoria de Marx diante dos paradigmas da economia acadêmica; c) a relação entre organizações proletárias e movimento autônomo do proletariado, e d) história do marxismo. Sua obra de maior fôlego foi “Marx e Keynes: os limites da economia mista” de 1969. Nela, Mattick analisou a relação entre as teorias econômicas de Marx e Keynes, concluindo pela incompatibilidade entre ambas, na contramão de muitos economistas de sua época que buscavam uma complementaridade entre tais teorias para evitar as crises e o desemprego. Segundo Mattick, enquanto Keynes procurava encontrar meios para que a demanda efetiva fosse suficiente para reduzir o desemprego a níveis “toleráveis”, Marx identificou que o capitalismo é uma sociedade grávida de contradições que levam à miséria social crescente e a crises sucessivas, e que portanto o “remédio” seria superá-la.
Contra falsos otimismos e pessimismos desesperados, Mattick olhou de frente todas as tentativas fracassadas que o proletariado fez de superar o capitalismo, esforçando-se para delas extrair ensinamentos. Para ele, as experiências das Revoluções Russa e Alemã, demonstraram que, nem a existência de um “partido revolucionário”, nem a existência de um sistema de organizações sindicais com forte inserção social, são garantia da passagem ao socialismo em uma situação revolucionária. Desde a década de 1930, foi firme na caracterização da URSS como uma nova forma de capitalismo, na qual a burocracia estatal assumiu as funções da burguesia privada no ocidente. Combateu firmemente a teoria de Kautsky-Lênin, segundo a qual a consciência revolucionária tem de ser “introduzida” de fora no proletariado pela intelectualidade progressista burguesa. E sempre sustentou que a essência do comunismo é a organização autônoma da produção pelos próprios proletários. Contrariamente aos apressados que poderiam interpretar suas concepções como sendo economicistas, basta citar seu comentário sobre as touradas na Espanha, quando observou que seria impossível construir o comunismo em um país cujos habitantes se divertiam vendo um animal ser torturado.
“Qualquer pessoa que escreve hoje, escreve história; as coisas acontecem mais rápido do que podem ser contadas.” — Paul Mattick
Durante a década de 1960, Mattick se tornou conhecido como um crítico de teorias em “moda” na época, como o homem unidimensional de Marcuse e as teorias do capitalismo monopolista de Baran e Sweezy, pois, para Mattick não se tratava apenas de interpretações mas, principalmente, de prática política.
Mesmo dentro de sua corrente política, Mattick conservou um conjunto de posições autônomas que permitiram a ele elaborar hipóteses originais sobre as contradições do capitalismo maduro. Uma delas foi a de que o proletariado não é, por essência e necessariamente, a classe revolucionária que tem a missão histórica de destruir a burguesia. Isso pode acontecer em determinados momentos históricos, mas depende, segundo seu entendimento, de um longo processo de formação, contraditório e não linear. E que não é ilimitado. Outra delas, foi a de que o capitalismo não será destruído por motivos puramente econômicos. Uma coisa é determinar os limites do capital por razões puramente econômicas,algo teoricamente possível de realizar, outra é considerar esse processo automático, independente dos seres humanos, pois sem seres humanos sequer a economia existe. Daí a conclusão de Mattick que, para o marxismo, não existe nenhum problema “puramente econômico”, pois a dialética concebe os fenômenos como totalidade, e a destruição real do capitalismo só acontecerá quando estiverem dados todos os fatores do processo histórico, ademais, acrescenta Mattick, o proletariado fará a revolução antes que esse limite teoricamente calculado se dê na realidade.
Sua abordagem permitiu evitar, por um lado, desilusões e desânimos, e, por outro, cair no reformismo ou na teorização do viável. Ao demonstrar, de um ponto de vista burguês, que a própria produção capitalista é limitada e relativa, Mattick nos provou que trata-se apenas de um modo de produção histórico, restrito a uma determinada época de desenvolvimento das condições materiais de produção. A história continua para além do capital.♟

