Perspectivas sobre as revoltas na Bolívia

Perspectivas sobre as revoltas na Bolívia

Neste mês de maio, parcela significativa da população boliviana iniciou ações de resistência contra o atual presidente após uma série de medidas impopulares que impactaram diretamente a realidade material dos explorados. Além de entender os fatos, tentaremos analisar os limites dessas revoltas no cenário democrático e também seus possíveis significados históricos para um projeto de emancipação proletária.

Breve panorama

Após um longo processo de desgaste político entre Evo Morales, presidente de 2006 a 2019, e Luis Arce, presidente de 2020 a 2025, ambos do partido MAS (movimento ao socialismo), o candidato de direita Rodrigo Paz iniciou a campanha eleitoral de 2025 com 3% de intenções de voto e em agosto conquistou 54% do eleitorado. Representante de oligarquias políticas históricas, orientou sua campanha com um discurso anticorrupção e, em um contexto de recessão econômica, adotou o lema “capitalismo para todos”.

Logo de cara, em 17 de dezembro de 2025, Paz editou o Decreto Supremo 5503, acabando com subsídios aos combustíveis, afrouxando a legislação de controle ambiental e retirando do Poder Legislativo decisões sobre a exploração de recursos naturais. Também houve a eliminação de tributos sobre grandes fortunas. Ainda em dezembro, o preço da gasolina já havia subido 86% e o do diesel 163%, e como consequência direta os combustíveis começaram a ser adulterados, o que levou à perda de milhares de veículos particulares, de transporte público e de maquinário agrícola. Em abril, veio a lei 1720, permitindo linhas de crédito bancário a pequenos proprietários rurais desde que dessem suas terras como garantia, o que foi encarado como uma tentativa de enfraquecer a união dos camponeses bolivianos.

Diante desse cenário, desde janeiro já estavam ocorrendo protestos de camponeses, povos indígenas, e diversas categorias proletárias como mineiros, professores, médicos e transportadores, com diversos enfrentamentos à polícia que culminaram em algumas mortes. Porém, em maio, com a piora nas condições de vida e a forte repressão policial aos protestos, a principal reivindicação passou a ser a renúncia do atual presidente, por meio de bloqueio de estradas e greves generalizadas, com atuação da Central Operária Boliviana (COB).

O epicentro das manifestações foi a região de La Paz (sede do governo), mas também houve forte mobilização em Potosí, Cochabamba (reduto político de Evo), Oruro, Chuquisaca e Santa Cruz. Há greve no transporte público, escassez de alimentos, de medicamentos e de oxigênio nos hospitais, apagões pontuais de eletricidade e, em algumas regiões já foram montadas barricadas para resistir à repressão estatal. Ainda, há uma forte tendência nas bases dos movimentos a proibir que suas lideranças façam qualquer tipo de acordo ou concessão ao presidente.

“A visão ocidental e democrática desses acontecimentos consiste em negar o que houve neles de intervenção autônoma dos proletários, de solidariedade, de ação coletiva, para não ver mais do que uma força bruta destinada unicamente à destruição, uma força que deveria ser direcionada a objetivos positivos: direitos humanos, partidos políticos independentes e eleições livres.”  Gilles Dauvé & Karl Nesic

As vozes da socialdemocracia

O presidente boliviano pediu “ajuda humanitária” a Lula e foi atendido por meio do envio de alimentos. Rodrigo Paz também recebeu suporte logístico da Força Aérea Argentina e dos EUA para atenuar o desabastecimento. Na ocasião, Lula ressaltou “a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito”, prescrevendo que se chegue a uma solução pelo diálogo e dando a entender que é contrário à saída de Paz.
Essa afirmação é coerente com sua trajetória política, marcada pela defesa intransigente da legalidade burguesa frente à autonomia proletária. Trocando em miúdos, o recado de Lula à população boliviana é que aguentem até as próximas eleições, sem violência e sem criar instabilidade institucional, e que também esqueçam dos 23 mortos pelas forças de repressão na crise política de 2019.

Na mesma linha socialdemocrata, Evo Morales afirmou que o movimento é contra o neoliberalismo e contra o alinhamento internacional da Bolívia com os EUA. Para ele, todas essas manifestações se resumem a posicionamentos que o elegeram presidente por três mandatos consecutivos, nada além.

“Esta mudança não poderá se operar por um ato revolucionário único, mas será preciso um largo processo, no qual os trabalhadores, através da necessidade e de amargos desenganos, de vitórias ocasionais e de repetidas derrotas, ganhem pouco a pouco a força suficiente para conseguir uma sólida unidade e a maturidade para a liberdade e o poder. Esse processo de luta é a revolução proletária. A duração desse processo será diferente segundo os países e as circunstâncias, e depende, antes de tudo, da força de resistência da classe dominante.”  —  Anton Pannekoek

Horizontes

Essa experiência de convulsão social na Bolívia, mais uma vez deixa claro que a via eleitoral não oferece saídas para os explorados. De um lado, a direita busca no descrédito da esquerda legitimidade popular para implementar as ofensivas do capital. Em seguida, a esquerda do capital volta ao poder tentando se equilibrar entre a garantia da paz social, a ampliação dos lucros da burguesia e algumas pequenas reformas suficientes para manter o proletariado esperançoso. Passam-se as décadas e o capitalismo segue intacto e hegemônico. Quais seriam, então, as formas mais eficazes de produzir uma ruptura?

Para os que se filiam a correntes teóricas ligadas ao bolchevismo, o que falta hoje na Bolívia é um partido da vanguarda revolucionária capaz de coordenar os esforços dos rebeldes em direção a um processo revolucionário que culmine na tomada do poder de estado. Em uma hipótese muito otimista em que se conseguisse vencer as forças contrarrevolucionárias dos países vizinhos liderados pelos Estados Unidos, o isolamento econômico seria um castigo cruel para a população de um país sem acesso ao mar. Ademais, dadas suas consideráveis reservas de lítio e de gás natural, seria pouco provável que potências capitalistas dessem alguma trégua nas tentativas de derrubar o regime “socialista” em questão.

Essa forma de enxergar a luta de classes parece pressupor que qualquer revolta generalizada pode ser convertida em uma revolução socialista, bastando que a vanguarda saiba transformar a consciência política das massas e canalizar sua disposição de enfrentamento para um processo que os conduza à cúpula da estrutura estatal. Chegando lá, acreditam que o partido ensinará  à população o que é o socialismo. 

Não temos notícia de que atualmente o proletariado boliviano esteja esboçando formas de autogerir a produção e a distribuição dos frutos de seu trabalho. Tampouco que os camponeses estejam propensos a coletivizar suas terras, ou que haja alguma estrutura similar a povo em armas ou conselhos de soldados dispostos a romper com o capitalismo. É preciso ajudar a construir esse cenário, cientes de que é um trabalho que pode levar décadas.

Para os comunistas bolivianos resta encarar a realidade material como ela de fato se apresenta: revoltas por melhores condições de vida unidas pela reivindicação da saída do atual presidente. O que pode ser feito no interior dessas lutas é sugerir formas autônomas de deliberação coletiva acerca do rumo dos protestos – organizadas por local de trabalho e de moradia – e tentar fazer com que essas práticas sejam enraizadas no proletariado mesmo após o fim dessa jornada, independente de quem seja o presidente. 

Ao mesmo tempo em que é preciso aproveitar essa força demonstrada agora para arrancar do Estado e dos patrões o máximo possível de melhorias materiais, é também imprescindível estimular os explorados a dependerem cada vez menos das instituições burguesas para a tomada de decisões e para a resolução de seus conflitos. Ainda, urge iniciarmos a construção de uma integração proletária em nível internacional.

A formação de um processo revolucionário será cheia de avanços e recuos, e as organizações de comunistas devem ser capazes de demonstrar a correlação lógica entre todas essas experiências. O que não podemos admitir é que o proletariado comece do zero a cada novo ciclo de lutas.♟